quarta-feira, 17 de abril de 2013

Justified 4ª Temporada


Se há série que merecia muito mais amor do que aquele que recebe, é sem dúvida o Justified. Não é tanto que não receba muito amor de quem a vê, é mais que muito mais gente a deveria ver. Justified é um expoente da arte do diálogo, elevando a troca de galhardetes verbais ao nível de intensidade de qualquer duelo de cowboy. Vidas são perdidas e ganhas em hábeis trocas de palavras.

Passada no Kentucky, um estado maioritariamente branco e protestante, Justified segue as atribulações dos marshalls e das mafias e criminosos locais, especialmente das suas zonas mais rurais/industriais que são também mais tradicionalistas, saloias, mais hardcore e xenófobas, servindo-se da personagem principal, o marshall Rayland Givens, como ponte de ligação entre as forças policiais e as criminosas. Rayland é uma mistura de cowboy do oeste com um cavalheiro sulista, sempre de dedo no gatilho mas sempre do lado de cá da lei: atira a matar ao mínimo sinal mas, daí o nome da série, o dedo no gatilho é sempre justificado.


Na primeira temporada após um "duelo" com um mafioso de Miami, Rayland é destacado à laia de castigo para Lexington, a divisão a que pertence a sua terra natal, Harlan. Os episódios seguem uma mistura de histórias pontuais de perseguições de fugitivos com o desenvolver de uma história mais de fundo, relacionada com o passado de Rayland, o pai criminoso, a ex-mulher, as disputas familiares ancestrais e sobretudo com a família Crowder. É precisamente desta família que surge Boyd Crowder, que ao longo das temporadas vai estabelecer com Rayland uma relação de verdadeiro amor/ódio, como dois irmãos que se odeiam no fundo porque são parecidos. Ambos os actores fazem um trabalho para lá de magnífico e raramente dois adversários tiveram uma química tão grande. Cada embate (a maior parte deles, lá está, são verbais) está ao nível do stand-off do Omar/Brother Mouzone do the Wire.

A segunda temporada é soberba, sobretudo devido aos vilões principais da temporada, o clã Bennett  responsável pelo tráfico de cannabis na região de Harlan. Boyd e a família Crowder continuam lá mas cabe a Mags, a matriarca dos Bennetts, o mais inesquecível papel de vilã da série. É ela a culpada de esta ser até agora a melhor temporada da série.

A terceira temporada perde um pouco pela entrega do papel de vilões principais a personagens fora do colorido mais local mas nem por isso deixa de ter episódios e momentos magníficos.

A quarta temporada, que terminou agora, leva-nos de novo a mergulhar em Harlan e na sua história, ao tentar resolver um mistério com 30 anos de idade que vai pôr em revolução quer os criminosos locais, quer a mafia de fora, quer as forças policiais. Todos se vão entregar entusiasticamente à procura da identidade de um homem muito, muito desejado, Drew Thompson. 

Apesar de todas as temporadas manterem uma dose regular de histórias mais pontuais, são sempre as histórias de fundo a dar coesão à série e a qualidade destas está muito presa à qualidade do inimigo principal. Até aqui a série estava a seguir um esquema de vilão principal a desenvolver-se ao longo da temporada até ao stand-off final mas nesta foge ao esquema: tem na mesma adversários estupendos mas desta vez o ênfase é posto na corrida e confronto entre as várias forças interessadas em descobrir quem é Drew Thompson. E é uma aposta ganha, não só pela história em si mas também por não deixar cair a série num formato rígido. Este evitar da formatação, de qualquer maneira, já era uma mais valia da série, que sempre conseguiu manter as suas personagens e histórias em evolução e crescimento: mesmo as personagens secundárias são tridimensionais, desenvolvem-se e mudam, têm vida para lá do seu papel de suporte das personagens principais (duas delas, o Marshall Tim e Colt têm quase direito a um muito interessante spin-off nesta temporada).


Para além da qualidade geral deste arco, nesta temporada há também a registar o melhor episódio de toda a série e o melhor episódio de TV que eu tenha visto em muito tempo. O episódio 11, quando os marshalls finalmente tomam posse do fugitivo Drew Thompson mas têm ainda de conseguir resgatá-lo de Harlan para um local mais seguro é de uma mestria incomum: o ritmo, os diálogos, o jogo de cintura a gerir os múltiplos focos de acção, as mudanças constantes e variadas localizações, a intensidade constante, tudo afinadíssimo
ao último grau.

Agora venha a quinta temporada... e quanto mais cedo melhor.

Se tiverem curiosidade e quiserem ler algo sobre a série escrito por alguém mais eloquente que eu, recomendo este artigo que foi o que primeiro me despertou curiosidade pela série: 5 Ways Dexter Can Learn From Justified


5 comentários:

  1. Quando ouço falar desta série é sempre bem, se calhar tenho de começar a ver isto.

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    1. Acho que sim, eu recomendo entusiasticamente. Já consegui viciar o Hugo mas de resto continuo em campanha pela série porque realmente acho que merecia muito mais público do que o que tem.

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  2. olha que não sabia que tinhas este cantinho

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    1. Ainda vem dos tempos em que eu e o Hugo tínhamos uma loja de BD mas recentemente decidi retomá-lo.

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